Conceito

Na exposição Sobre o nada eu tenho profundidades proponho apresentar parte dos resultados da pesquisa estética que venho desenvolvendo a respeito da relação entre memória e espacialidade. Nesta perspectiva, minha produção artística tem focado em imagens que, por sua aparente banalidade, tornam-se quase invisíveis na paisagem urbana.

É justamente essa invisibilidade, fruto de uma excessiva familiaridade com as coisas, que me interessa. Entendo que nisto reside a potência dessas imagens como constituidoras de nossos suportes de memória espacial e, por causa disso, de nossa identidade como citadinos.

Meu interesse se aproxima assim daquilo que Foucault chamou de diagnosticien du présent: quem busca fazer aparecer o que é tão próximo, tão imediato e tão intimamente ligado a nós e que, por isso mesmo, nós não o vemos.

Recorro, portanto, àquilo que permeia meu cotidiano citadino. Nesse processo me empenho num esforço de cronista, que se debruça sobre a cidade e descobre nela uma multiplicidade de imagens corriqueiras, mimetizando-as e reelaborando-as em novas narrativas visuais.

Assim como à Crônica, por seu viés literário, é permitida certa independência em relação ao registro literal dos fatos, reivindico, nas pinturas que faço, a liberdade da desconstrução poética das paisagens urbanas. Alterno, assim, o traço realista às pinceladas por vezes ficcionais e registro, nesses tons, objetos entrecortados do corriqueiro. Neste contexto, minha produção culmina em pinturas que oscilam entre a representação – por assim dizer fotográfica – desses fragmentos de paisagem, e o exercício de desconstrução, formal e cromática, das imagens representadas.

Proponho, na exposição Sobre o nada eu tenho profundidades, apresentar parte dos resultados dessa pesquisa sobre o circunstancial e o episódico da visualidade citadina, cujos fragmentos constituem as peças de um quebra cabeças sugestivamente familiar.

Carol Peso